domingo, 29 de agosto de 2010

Da racionalidade

Ele era racional. Nunca tomava decisões baseado em seus sentimentos e impulsos. Sabia que as coisas podiam não acabar bem se não fossem precisamente analisadas. Quando pequeno, sua mãe lhe perguntou se queria continuar onde sempre estudara e tinha seus amigos, ou se preferia ir para uma escola melhor. Sabendo da efemeridade das amizades, não pensou duas vezes antes de ir embora. O seu futuro era mais valioso. Na adolescência, via os seus colegas bebendo até cair e fumando pra relaxar. Ele não se entregava a essas maneiras químicas de ser feliz, a sua saúde vinha em primeiro lugar, não queria morrer cedo. Levava a saúde tão a sério que nunca fizera sexo sem preservativo, coisa de gente impulsiva e irresponsável. Não que tivesse feito sexo muitas vezes. Na juventude, tivera alguns relacionamentos nada duradouros - amor tirava seu controle das coisas, procurava evitá-lo. Mais tarde, pagava por prazer sempre que seu corpo começava a sentir falta de ejaculação. Quando perdeu os pais em um acidente de carro, quase sentiu-se triste, mas logo lembrou-se que um dia eles iriam embora de qualquer jeito. Falta talvez nem fizessem, ele já conquistara sua independência financeira trabalhando em um banco. Chegou à presidência do banco em sua meia idade.
Morreu sozinho e sifílico. Seu testamento dizia: deixo meus bens para serem investidos no replantio de árvores na Mata Atlântica.

1 comentário(s):

Daninha disse...

Ser racional e seguir o coração, acho que tem que ser um pouquinho dos dois...
Gostei do texto (:
Beijos